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Com teletrabalho, SP busca saída para imóveis

Por Marta Watanabe, Valor Econômico


A prefeitura de São Paulo estima que cerca de 25 mil servidores dos atuais 66 mil que estão trabalhando de casa em razão do isolamento social poderão migrar para o teletrabalho de forma definitiva no período de pós-pandemia. Regulado em decreto, a medida geraria uma economia potencial de R$ 1 bilhão em sete anos e deve resultar em uma redistribuição dos imóveis hoje ocupados pelo contingente de servidores que ficarão em home office. Prédios alugados podem ter contratos encerrados, e imóveis próprios, ser colocados à venda ou disponibilizados para outra secretaria. A prefeitura tem total de 116 mil servidores ativos.

A redistribuição de imóveis deve acontecer no decorrer de 2021, segundo a secretária municipal de Gestão, Malde Maria Vilas Boas. Uma mudança de uso atual para moradias populares, diz ela, não entrou em discussão. Malde destaca que os imóveis em utilização hoje estão sendo levantados por todas as secretarias e espera-se que os relatórios sejam finalizados até início de dezembro para que depois se definam as destinações.

Cálculos da prefeitura indicam que o funcionário em trabalho presencial custa em média R$ 12,5 mil ao ano, considerando gastos como recepção, vigilância, impressão, limpeza, café, energia, telefonia e água, afirma ela. Mais de 60% vêm do custo relacionado aos imóveis ocupados, como o aluguel de espaços.

Nos relatórios a serem apresentados em dezembro, diz Malde, também estarão definidas as funções que poderão ser realizadas à distância. Com base nisso o servidor poderá aderir ou não à nova forma de trabalho. A avaliação é de que sejam funções predominantemente administrativas, jurídicas ou analíticas. A ideia inicialmente é adotar um sistema misto no qual o home office seja combinado com um, dois ou três dias de trabalho presencial. “Queremos observar qual o efeito da mudança na relação das pessoas, se esse contato por recursos tecnológicos permite também a transferência de conhecimento e a troca de ideias.”

Malde destaca que no trabalho à distância caberá à secretaria e ao gestor o estabelecimento de metas, métricas e acompanhamento de desempenho dos servidores e das áreas. Caso seja percebido que o teletrabalho não permite o cumprimento de metas de produtividade, diz ela, será restabelecido o serviço presencial. A migração definitiva para o teletrabalho, segundo a secretária, é mudança que deverá ser construída por setor público, servidores, sindicatos e sociedade. Enquanto a prefeitura pode ter redução de despesas, avalia ela, os servidores terão melhor qualidade de vida e a sociedade tem o direito de saber se o trabalho será executado de forma honesta e adequada.

Para Philip Yang, fundador do Instituto Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole), a medida da prefeitura está em consonância com iniciativas já tomadas ou divulgadas pelo setor privado. Ele conta o caso de uma empresa que procurou o instituto. Até dezembro do ano passado, diz ele, o diretor-geral da empresa, que coordenava o trabalho de 1300 pessoas em imóvel localizado na região central da cidade, não queria falar em teletrabalho. Já em meio à pandemia, em junho, o mesmo executivo decidiu que vai deixar cerca de 900 empregados trabalhando em casa, mesmo após a crise sanitária. Com isso, a empresa poderá ter um centro de operações menor, fora da região central. Esse fenômeno, diz, pode fazer com que investimentos hoje direcionados a lajes corporativas, portanto, se desloquem mais para empreendimentos residenciais.

Com o teletrabalho realmente tornando-se definitivo, diz ele, a demanda por imóveis poderá passar por mudança, o que poderá provocar um realinhamento de preços. Uma descentralização da demanda por espaços de trabalho, que hoje está muito concentrada em alguns polos de geração de emprego, explica Yang, pode resultar em um realinhamento de preços de moradias e lajes corporativas dentro das cidades e na relação entre grandes e médias cidades. “Mas isso são hipóteses”, alerta. “Não sabemos até que ponto as mudanças são temporárias. Creio que teletrabalho será permanente, mas ainda não sabemos se irá se refletir em novos hábitos de moradia.”

Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, diz que o efeito do teletrabalho como um todo, no conjunto do setor público e privado, deve ser relativizado, até mesmo para o transporte. Ela lembra que a taxa máxima de isolamento social da pandemia na cidade foi de 60% e que boa parte disso está relacionada aos deslocamentos que deixaram de ser feitos pela suspensão das aulas presenciais. A parcela que foi para o home office durante a crise, diz, não chega a 30% dos trabalhadores porque se concentra em atividades como administração, serviços e gestão. O impacto será territorializado, diz. O polo corporativo da zona sul -região da Faria Lima, Berrini e Marginal Pinheiros -, exemplifica, provavelmente será impactado porque deve concentrar setores que migram para o home office. “Mas jamais o impacto mudará o fluxo do transporte coletivo na cidade.”